Os (não) erros que eu leio
Entrada #49. O que fazer?
Nem sempre a vida nos entrega o que pedimos; isso não significa nada, a não ser uma possível quebra de expectativas. Afinal, qual a garantia da relação direta do que pedimos com o sentimento que desejamos obter com aquilo que recebemos desse mesmo pedido?
Depois de décadas com a majestosa incumbência e responsabilidade das minhas escolhas literárias, que não afetarão absolutamente ninguém a não ser eu mesma, aprendi a identificar os livros que se encaixam nas seguintes categorias: (i) despertou minha curiosidade e parece bom, (ii) esse best-seller tem tudo a ver comigo; (iii) já li esse autor, gostei e, portanto, vou ler mais esse título dele; (iv) me interesso por esse conteúdo e quero aprender mais; (v) preciso de algo leve, gostosinho, que me deixe viciada, um verdadeiro page turner; e (vi) gostei da capa.
Deu para notar que são várias as categorias (inclusive, já cheguei a cogitar organizar minha estante com base nelas, pois, de novo, isso não afetará absolutamente ninguém além de mim) e talvez pela nada objetiva categorização, posso me perder nesse esquema, o que acarreta, algumas vezes — e, dependendo do meu humor, várias- a escolha errada do livro.
Uma breve observação: errar pode soar forte, demasiado agressivo para o que pretendo explicar, mas impacta e serve ao propósito. Então, vejamos.
Errei quando quis ler a biografia do Steve Jobs. Achei que estava lendo de acordo com a categoria i e acontece que a categoria, na verdade, era “livro ok, mas pessoa-biografada-insuportável-embora-icônica-e–de-grandes feitos”.
Errei com Pessoas Normais, da Sally Rooney, que achava pertencer à categoria ii, mas que, na verdade, pertencia à categoria “não vale o hype”. Inclusive, importei o livro, o que significou gastos em dólar durante a pandemia. Péssima, péssima decisão, mas terminei o livro.
Recentemente, errei novamente. Só que, dessa vez, meu erro foi um belo de um acerto. Comecei a ler Como Arruinar um Casamento (The Wedding People) pois, vejam só!, se enquadrava em duas categorias. Era a junção do “esse best-seller tem tudo a ver comigo” com ”preciso de algo leve, gostosinho, que me deixe viciada, um verdadeiro page turner”. Errar nunca foi tão bom.
Acontece que, Como Arruinar um Casamento até pode se enquadrar nessas duas categorias com suas respectivas características, ele até pode ser tudo isso, só não são essas as características que fazem dele um livro tão completo e rico de leitura.
A escolha foi feita para equilibrar outras que estavam acontecendo simultaneamente. E que já contavam com suas parcelas generosas de densidade: conflitos maternos, gráficos e estatísticas, e outros dois tão abstratos que irei poupá-los da descrição. O que eu buscava era simples: uma leitura mais leve, até mesmo superficial, com um toque de romance clichê.
O leitor até pode encontrar essa leveza, caso escolha uma leitura mais corriqueira, sem tantas interpretações nas entrelinhas e nos conflitos entre os personagens. Não acredito que tenha sido esse o motivo de seu sucesso literário, entretanto.
Como Arruinar um Casamento pouco tem relação com casamentos em si. E sim com nossos desejos mais intrínsecos e fundamentais, que possuem relação direta como nosso eu interior; quem nós somos de verdade e o que buscamos na nossa vida.
A autora é afiada nos diálogos, que são cheios de análises e reflexões revestidos com um toque de humor. Com o cenário encantador de Newport (quem conhece entende o que estou falando), o hotel em que passa quase toda a história proporciona um ambiente neutro e familiar a todos nós, e não rouba espaço para o verdadeiro drama: como nós nos relacionamos com os outros diz mais sobre nossos conflitos internos do que sobre a pessoa com quem estamos nos relacionando, seja no aspecto amoroso, de amizade, parentesco, etc.
O livro exigiu mais tempo, mais fôlego e uma digestão cuidadosa se comparado àquela minha ideia e buscas iniciais, trazendo como recompensa resultados mais valiosos e duradouros de reflexões e descobertas. São justamente os pontos de desconforto e, de certo modo, críticas, que marcam certos livros.
Vi que a autora Alison Espach possui mais dois títulos: The Adults e Notes on Your Sudden Disappearance. Lá vai a categoria “já li esse autor, gostei e, portanto, vou ler mais esse título dele”. Até hoje essa não falhou. E, se um desses títulos acabar sendo outro “erro” como The Wedding People, que sorte a minha — porque alguns erros realmente valem a reincidência.
Meu sumiço. Difícil explicar, já que nem mesmo eu sei o que fez com que eu me afastasse desse projeto por dois mesmo, mesmo tendo tanto apreço por essas janelas.
Mas a vida é feita de ciclos, fases e muitos pratinhos para equilibrar.
A verdade é essa e somente ela.
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E você, já leu esse livro? O que achou?





